quarta-feira, 1 de abril de 2015

Perdi-a

Vi-a hoje na rua. Sorridente e tranquila, com um brilho especial, mais bonita e mais segura do que alguma vez a tinha visto. Precisei de parar e olhar para ela durante longos momentos, observá-la, para ter a certeza que era mesmo ela. E o pior é que cheguei à conclusão que já não era ela. Já não era a menina que eu outrora magoei e desprezei. Hoje, ela caminha com a cabeça levantada, o queixo erguido, olha em frente e nada, nem ninguém, lhe mete medo. Tem uma tranquilidade e uma confiança que eu não lhe conhecia. E continua a sorrir, aquele sorriso aberto que sempre foi a imagem de marca dela. Mas o sorriso, também mudou. Hoje é menos terno, mais frio. Mais venenoso, cauteloso . E ela já não deixa qualquer pessoa entrar na vida dela. Já não confia cegamente, já não conta o que lhe vai no coração, já não partilha com qualquer pessoa as suas desconfianças, inseguranças e receios. Mas continua a rir, a falar abertamente e a gargalhar alto quando alguém conta uma piada. Para qualquer pessoa que a conheça, que se cruze com ela num dia qualquer, ela está igual, a mesma menina sorridente de sempre. 
Mas eu sei que ela mudou. E sei-o porque fui eu que a mudei. Graças às mentiras que lhe contei, às vezes em que a magoei, quando lhe fiz promessas vãs que nunca tencionei cumprir. Mudei-a naquelas noites das quais já quase não tenho memórias - as noites em que bebia e dançava, abraçava e beijava qualquer uma que se insinuasse. Sabia que ela nunca me faria o mesmo, nunca me pagaria na mesma moeda porque ela era melhor do que isso. Mais calma do que eu, mais ingénua em certa medida, pouco confiante mas muito mais inteligente que eu. Tantas vezes ignorei as mensagens dela, os telefonemas, deixava-a sozinha em casa sem saber onde é que eu estava, ou com quem. Deixava-a sozinha e alimentava os medos e as inseguranças dela, com aquela certeza estúpida de que a tinha na palma da mão e que ela nunca seria corajosa o suficiente para se soltar de mim. 
E depois, quando me cansava e aborrecia de brincar às bonecas, voltava para ela, sem dúvida de que ela estava à minha espera de braços abertos. Lá no fundo, ela sabia tudo o que eu tinha feito e, ainda assim, nunca me negava um abraço, nem o cafuné que eu tanto gostava. 
Achava eu que ela era pouco corajosa. Afinal o fraco era eu, sempre fui eu. Porque não passava de um puto estúpido e egoísta e que não conseguiu dar valor ao melhor que tinha. 
Agora olho para ela, com uma confiança e coragem que chega para ela, para mim e para qualquer pessoa que a encontre. Não sei se ela me viu mas, se o fez, não demonstrou nada. A nossa história é apenas uma página no livro enorme que ela agora se dedica a escrever. Eu prometi-lhe que íamos ser felizes. Nunca tive intenção de cumprir essa promessa mas, para minha surpresa, ela levou-a a sério. Porque eu nunca disse que íamos ser felizes juntos. E, para me abrir os olhos, ela conquistou essa felicidade. Sozinha, independente.
E eu sei que já não tenho qualquer hipótese de entrar na vida dela. Sei que apenas um grupo pequeno de pessoas vai ter a confiança dela - e esse grupo vai ter de lhe dar todas as provas de que a merecem.
E que sorte que essas pessoas têm. Porque quem entra na vida dela, aprende muita coisa. 
E como eu invejo essas pessoas...

2 comentários:

  1. Adorei! Acho que vou dizer isso de todos os textos que aqui escreveres porque sinceramente adorei mesmo. Cada palavra, cada ideia, pensamento, super bem estruturado e o tema é muito bom, fez-me lembrar da "Cuida bem dela" ahahah Continua amor *.* Quero mais <3

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    1. Obrigada! A sério, tenho o melhor exemplo e o melhor incentivo para continuar a partilhar o que escrevo! Obrigada por não me abandonares <3
      Sabes que eu adoro essa música, saber que escrevi alguma coisa minimamente parecida com ela enche-me de orgulho :')
      Daqui a nada publico outro babe, conto contigo pra ler eheh

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