quarta-feira, 3 de junho de 2015

Deixa-me Ir

Comecei a acreditar no amor no dia em que te deixei ir. 
Irónico, eu sei.
Vou contar-te uma história, a minha história, a nossa história. Não sei nem como nem quando é que isso aconteceu. Só sei que, de um momento para o outro, comecei a pensar mais em mim do que em ti, em nós. Comecei a aperceber-me que a vida era mais do que aquilo que eu vivia e que queria viver tudo o resto. Passei dias e noites, semanas a fio a conhecer outros cantos, outros rostos, outras histórias, outros sorrisos, outras vontades. Outros mundos. 
Vivi tanto que não tive tempo para pensar em ti nem nas memórias que, até então, não paravam de assombrar a minha vida. 
E não foi fácil. Quando olho para trás, tu estás lá. Estás em cada esquina, tão presente como sempre estiveste. Uma parte do meu passado que está demasiado presente e que teima em não me deixar avançar. Às vezes a cores, às vezes a preto e branco, outras vezes sem qualquer cor, sem qualquer som. Apenas memórias sem rostos e um caminho que não me leva a lado nenhum. 
Foi desse passado que eu tentei fugir e não consegui. 
Tu sabes, sabes porque me conheces melhor que ninguém. Porque tens controlo sobre mim, sobre a forma como vejo o Mundo e como encaro os outros. 
Sabes que me marcas de uma forma que mais ninguém conseguiu, nem vai conseguir. Todos os outros vão-me dar pouco, comparando com aquilo que me deste. Porque me envolveste de uma forma tão louca, tão invulgar, tão venenosa, que eu vejo-te em qualquer lugar do mundo, encontro-te quando estou perdida. Vejo a tua cara num milhão de caras diferentes e oiço o teu riso em todos os outros risos. E em outros choros, também. 
Quando eu viro a cara, quando fecho os olhos, quando me permito olhar para trás, és tu que estás lá. Dessa forma tão louca e pouco saudável que só tu sabes ter.
Era dessa marca que eu tinha medo e foi dessa marca que eu fugi. 
Fugi, numa esperança demasiado vã que, se não te visse, se não te tocasse, esse passado podia ser apagado. Não pode e sei disso agora. 
Mas também sei que esse passado não define quem sou e, certamente, não define aquilo que quero do meu futuro. Sou demasiado senhora do meu nariz para deixar que isso interfira em qualquer coisa daqui para a frente. Vou andar perdida muitas vezes, vou chorar noutras tantas e vou querer que o Mundo pare em muitas outras. Eu sei disso. Mas também sei que serei feliz quando me encontrar, sem medo que o passado volte para me assombrar. 
E não me interpretes mal, eu fui feliz contigo. Durante algum tempo, soube-me bem ouvir estilos de música diferentes, fazer coisas que não fazia habitualmente. Soube-me bem conhecer o teu toque, ouvir a tua voz, acordar contigo dos meus pesadelos mais escuros. 
Mas, depois desse tempo, senti saudades. Senti saudades da minha música e das minhas pessoas, dos meus hábitos aborrecidos, dos sonhos que perseguia sozinha. 
Não tiveste culpa nenhuma, eu é que não consegui mudar. Não consegui porque não quis, porque, sabes, eu gosto dos meus hábitos. Gosto de sentir que sou dona e senhora da minha vida e que posso fazer com ela aquilo que eu quiser.
Gosto demasiado de tomar as decisões só porque sim, só porque quero, sem ter de pedir autorização e sem ter de dar justificações. 
É isso, não sou pessoa de perder tempo com justificações. Deste-me algo bonito para lembrar e uma parte de mim vai ser sempre apaixonada por essas memórias. 
Mas sou mais feliz se não tiver essas memórias por perto. 
E se isso implicar andar sozinha e perdida, se isso implicar destruir-me e reconstruir-me, que seja. 



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