sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Ao meu passado demasiado presente

Uma vez disse que, na noite em que me sentasse e começasse a escrever-te algo, seria a noite em que iria admitir, para os outros e para mim mesma, que me apaixonei por ti. 
Parece que essa noite chegou. 
Tão sonhadora e tão desfeita em pedaços, com tanta vontade de ver o mundo e, ainda assim, com tanto medo de arriscar e de viver. Era assim que eu estava quando nos conhecemos. 
Vontade de voar e os pés demasiado assentes na terra foi como tu tão bem me definiste.
E que sorte a nossa, encontrarmo-nos logo quando tudo parecia querer levar-nos para longe um do outro. 
Tivemos a sorte de ter momentos tão bons, conversas sem sentido, encontros à toa e despedidas que só nos mostraram onde queríamos estar: nos braços um do outro. 
Fomos uns privilegiados. 
Com tanta gente no mundo, tropeçamos um no outro e partilhamos os nossos sorrisos e as nossas lágrimas.
Vivemos tanta coisa, tantas luas, tantos sóis, ora brilhantes ora tapados por nuvens. 
E lá estávamos nós, tão presentes na vida um do outro, quando dizíamos a nós próprios que seríamos mais felizes se seguíssemos caminhos separados.  
Era mentira. 
Eu só seria feliz se fizesse o que queria e o que eu queria era ficar lá contigo. Caminhar para ti quando me apetecesse, sabendo de antemão que me irias abrir a porta com um sorriso convencido na cara, com aquele teu ar de espertalhão que dizia "sabia que estavas a chegar". 
Beber contigo e partilhar cigarros enquanto dançávamos alheios à multidão que nos olhava e rodeava e acordar no dia seguinte sem me lembrar de nada. Que se lixassem os pensamentos, desde que estivesse na tua cama, estava tudo bem. 
Mas isso nunca iria durar muito e nunca te iria deixar feliz. 
Precisas de mais. 
Precisas de alguém que te segure a mão e que caminhe contigo sem ter medo de onde os teus desejos e sonhos a vão levar. 
Eu não sou nem nunca serei essa pessoa. Estou demasiado atordoada. 
A minha vida é feita de caminhos que não quero voltar a cruzar, mas que ainda me chamam. 
Assuntos mal resolvidos que não me deixam dormir à noite. Vontade de voltar atrás, com medo que o futuro não me traga a felicidade que um dia perdi. 
Por isso, sim, seremos mais felizes se estivermos separados. Se vivermos a nossa vida não como se nunca nos tivéssemos cruzado, mas com a certeza que estamos melhor se fizermos desse encontro uma passagem.
Não precisas de me esquecer. Eu certamente não o farei. 
Da próxima vez que me cruzar contigo, na cidade onde fomos felizes ou na cidade que os dois queremos visitar, vou sorrir, sabendo, de coração cheio, que me ensinaste mais do que eu seria capaz de aprender sozinha. 
Vou agradecer ao destino por me ter dado a oportunidade de conhecer uma das pessoas mais incríveis que alguma vez entrou na minha vida. Mas não vou esperar que me abraces ou que me digas olá.
Vou querer que sigas em frente, sozinho ou acompanhado, mais sorridente. 
Vou querer que guardes uma recordação bonita, mas nada mais do que isso. 
Vou querer que traces o teu próprio caminho e sigas a tua vida, com a noção que marcaste a vida de alguém. 
E que esse alguém te deixou livre não por inseguranças, não por saber que outras tantas miúdas tinham cruzado o teu caminho antes, mas sim por ti. 
Porque mereces mais do que te podia dar. 
Obrigada por teres feito de mim uma pessoa melhor e por teres deixado o meu coração mais preenchido. 
Agora, eu também preciso de seguir a minha vida, sabendo que é bom ter uma caixa de recordações cheia, mas que é melhor ainda caminhar em frente, sem ter ninguém a prender-me lá atrás. 



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