Uma vez disseram-me que precisava de expulsar da minha vida tudo aquilo que me fazia mal.
Nunca as palavras fizeram tanto sentido como agora.
Eu já te deixei ir há muito tempo. Não por ciúmes nem por medos, nem sequer por ódio, como tu imaginavas. Não por ter medo de não viver com mais ninguém aquilo que vivi contigo, nem por saber que iria chorar, ficar de coração partido durante meses a fio. Apenas porque precisei de te perder para me encontrar.
Durante algum tempo eu fingi. Fingi que não te queria, que não chorava por ti, que não me arrependia de te ter conhecido e de ter feito tanta merda quando tu nem perdias tempo a olhar para mim.
Fingi que não pensava em ti antes de adormecer e que não sentia a tua falta em dias de chuva.
Fingi que não tinha medo que me esquecesses, que encontrasses noutro alguém aquilo que em mim não tinhas visto.
Depois passou. E o momento em que desapareceste da minha memória foi muito pior que todos os momentos de sofrimento que já tinha passado. Porque, em vez de tristeza, mágoa, solidão, senti medo.
A partir desse dia, soube que eu nunca mais seria a mesma.
O nariz empinado foi-se embora e nasceu uma pessoa mais humilde. Uma pessoa que se cala, mesmo quando quer gritar. Que ouve os outros, mesmo quando não concorda e não quer estar ali, uma pessoa que faz um esforço para ficar quando se quer ir embora.
E que merda de pessoa é essa.
Tu fazias-me mal e eu expulsei-te da minha vida, na esperança de ficar melhor. Deixei de ir ao nosso restaurante favorito e de ouvir as músicas que me faziam lembrar de ti.
Os meus lençóis deixaram de ter o teu cheiro depois de inúmeras lavagens e eu não voltei a percorrer o caminho onde nos cruzamos pela primeira vez e onde fizemos questão de passar tantas vezes.
Já não me sento naquele cantinho onde costumávamos ver as estrelas e falar da nossa infância, do nosso futuro, da nossa casa com piscina e jardim e dos nomes que queríamos dar aos nossos filhos. Já não acordo no meio da noite à tua procura na cama. Agora, não me lembro sequer do teu sabor de gelado favorito.
Já não me fazes falta, já não sinto nada. Nem saudades.
Que merda. O instante em que não sentimos nada é muito pior do que todos os dias em que achamos que já não vamos aguentar o nosso próprio corpo, porque tudo nos dói.
Mas, o pior, é que a minha vida não mudou por te teres ido embora. Não melhorou. Continuo a sentir-me da mesma maneira, todos os dias.
Agora só como gelado de chocolate, porque tu não estás cá para me obrigar a comer outros sabores.
Só peço pizza de fiambre e ananás porque é a única que me sabe bem, ao contrário daquelas misturas estranhas que me obrigavas a experimentar.
Mas ninguém voltou a entrar no lugar onde tu entraste. Ninguém voltou a ver o meu lado que só tu conheceste.
Quando me cruzo com outras pessoas na rua, é como se já não tivesse a capacidade de lhes abrir o coração. É como se tudo estivesse toldado por meios e receios que antes não existiam.
Que merda.
E isto é tudo para te dizer que, depois de expulsar da minha vida aquilo que me fazia mal, não apareceu mais nada que me fizesse bem.
Neste momento, precisava de ti aqui. A minha cama já não é a mesma onde tantas vezes dormimos, mas isso não me impede de sentir a tua falta nela.
Queria que estivesses aqui. E não precisavas de falar, nem de me ouvir.
Não precisavas sequer de me abraçar, nem de me prometer que desta vez ias ficar e ia ser tudo diferente. Só queria que estivesse aqui alguém, só queria saber que não estava sozinha.
Ter na nossa vida alguém que nos faz mal aos olhos dos outros seria melhor do que não ter nada, nem ninguém.
Mas não estás aqui e eu não sei onde estás. Espero que não estejas a fazer mal a mais ninguém e espero que os teus pensamentos da madrugada não te martirizem tanto como os meus me martirizam.
Que merda.

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