terça-feira, 19 de maio de 2015

Não Somos

Os homens são todos iguais. 
Foi a frase que eu cresci a ouvir e que oiço todos os dias. Ouvia a minha mãe a dizer, a minha irmã, as minhas amigas, as minhas namoradas e ex-namoradas.
Ouvia-a de todas as mulheres que me rodeavam, as que conhecia e as que não conhecia. 
Umas vezes de forma mais sentida, como se todas essas mulheres tivessem sentido na alma e na pele tudo o que todos os homens iguais faziam às mulheres, supostamente todas diferentes, outras de forma mais vazia, em tom de piada. 
Ouvi isto como se fosse um provérbio popular, uma verdade absoluta, uma certeza irredutível.
São todos farinha do mesmo saco, querem todos o mesmo, dizem elas, tão certas sobre si mesmas e o que dizem. Como se elas não fossem tão parecidas entre elas, como se não andassem também elas à procura do mesmo. Como se todos nós, no fundo, não andássemos à procura do mesmo.
Procuramos príncipes e princesas encantados, procuramos o amor em todas as esquinas, procuramos pessoas que nos amem e nos compreendam, que vejam em nós aquilo que não conseguimos ver quando olhamos ao espelho.
Queremos ser amados, mas nem todos temos a capacidade de amar. E, acreditem, conheço muita gente que não tem, de todo, essa capacidade.
É nisto que somos diferentes.
Apercebi-me disso quando conheci alguém que me deu toda a capacidade de amar, que me olhou e me leu por inteiro, que me conheceu até ao recanto mais profundo, sem se importar com o meu passado, com as minhas histórias tristes, com as minhas histórias mal acabadas ou por acabar.
Foste tu. 
Entraste na minha vida com a calma de um furacão. Trouxeste a serenidade que ninguém tinha trazido, da forma mais louca.
Tiraste-me do sério, deste-me tanta coisa para lembrar, deste-me a certeza que não somos todos iguais.
Deixei de sair à noite, graças a ti. Não por me prenderes, não por me proibires, não por não teres confiança em mim, mas porque não precisava.
Porque correr os bares todos de mini na mão não me fazia feliz, não me acrescentava nada. 
Não precisava de nenhuma das outras mulheres, nem daquelas de quem tu tinhas ciúmes.
Não me importava se o cabelo delas estava melhor pintado que o teu, se tu tinhas raízes e elas não, se as roupas que elas usavam eram mais bonitas ou mais caras do que as tuas. Nunca me importei porque, quando olhava para ti, não eram as tuas roupas que eu via.
Via-te pelo que tu eras, da mesma forma como tu me vias.
Deixei de ter interesse em beijar gajas na noite porque nenhuma delas eras tu.
Sair à noite deixou de ter piada a partir do momento em que a minha cama tinha o teu cheiro e eu me sentia mais em casa contigo do que em qualquer das casas em que estive.
Reconstruíste-me.
Deste-me coisas que eu não conhecia. Mostraste-me que não importa quanto tempo passamos com uma pessoa. Numa hora, ensinaste-me mais do que todas as pessoas com quem me cruzei na minha vida.
Não sobram ressentimentos, nem mágoas.
Sobram as recordações que tanto significam, a forma louca como entraste na minha vida e como me fizeste viver.
Não vou voltar a sair nem a beber, porque tornaste-me melhor que isso.
Não vou procurar outras, porque ninguém se irá deitar na cama que ainda tem o teu cheiro e as tuas memórias.
Quando te reencontrar, seja daqui a um ano ou dois, seja no sítio onde nos vimos pela primeira vez ou na praia onde demos o nosso primeiro beijo, não me vais encontrar como me deixaste.
Vais-me encontrar com a certeza de que és tu quem quero e de que esperarei por ti o tempo que for necessário.
E, quando chegares, eu vou ser o homem não que tu queres, mas que tu mereces.
Prefiro viver sozinho para sempre a ter alguém que não és tu. Prefiro estar sozinho a ser menos daquilo que tu mereces.
Fizeste isso por mim, e agradeço-te.
Agradeço-te por me teres mostrado que não somos todos iguais.



O Mundo é muito grande e eu tenciono descobri-lo. Quando chegares, quando me encontrares, conto-te tudo. Todas as minhas aventuras. E depois, partimos. Vamos voltar a descobri-lo, mas juntos.
E, por aí, em qualquer lugar do Mundo, vou contar-te a minha história. 
Quando partilharmos tudo um com o outro, vamos viver mais aventuras. Criar mais memórias.
Entretanto, eu espero por ti.
Não sou igual a todos os outros, a nenhum dos outros. Vou mostrar-te isso e vou fazer com que tenhas tanto orgulho em mim, como eu tenho na pessoa em que me tornei.

domingo, 17 de maio de 2015

1001 amores

Não sei há quanto tempo não a vejo.
Não sei quando foi a última vez que ela sorriu para mim, quando foi a última vez que me deitei no colo dela, no sofá, enquanto víamos um daqueles filmes românticos, pirosos e lamechas que ela tanto gostava. 
Não sei quando foi a última vez que ela me disse um "bom dia" com aquela voz rouca, ensonada e linda que ela tinha quando acordava. Não sei quando foi a última vez que a vi a passear em minha casa, com o cabelo despenteado e a cara sem maquilhagem, enquanto cantarolava uma música que inventava na hora e cozinhava para mim.
Não sei quando foi a última vez que a vi arranjar-se e maquilhar-se para sair comigo, porque não queria ser inferior às minhas "amigas". Mal ela sabia que era superior a todas as minhas amigas e a todas as gajas que eu a conhecia. Mal ela sabia que eu era louco por ela, de todas as maneiras e feitios, e a achava linda de morrer, mesmo sem maquilhagem. Sobretudo sem maquilhagem.
Não sei quando foi a última vez que lhe disse que a amava. Devia ter-lhe dito todos os dias. 
Não sei quando me apercebi que ela não ia voltar para mim. Talvez fosse nas vezes em que bati à porta de casa dela e ela não abriu. Nas horas em que a bombardeei com mensagens que permaneceram sem resposta ou nas tantos momentos em que lhe liguei e ela não me atendeu.
Ou talvez fosse nas vezes em que a vi com as amigas, sorridente e feliz. Quando olhou para mim e desviou o olhar, como se não me conhecesse e não soubesse todos os meus segredos. 
Não sei dizer quanto tempo esperei por ela. Tinha a certeza que ia voltar, como voltava sempre, fosse por saudades, por me amar demasiado ou por saber que eu precisava dela. Que ficava incompleto sem ela.
O problema foi que ela nunca voltou. Nunca mais me mandou uma mensagem a dizer que sentia a minha falta, nunca mais me ligou para me dar raspanetes, para dizer que tinha que crescer, para me dizer para ter cuidado com os disparates que fazia.
Nunca soube muito bem o caminho que queria seguir e ficou mais difícil ainda por não a ter a meu lado. Por saber que ela me agarrava a mão e me fazia retomar sempre ao rumo certo quando me começava a perder. Perdi-me muitas vezes enquanto a tentava encontrar.
Durante muito tempo quis fazer todos os disparates, sair à tarde e voltar apenas na manhã seguinte, beber até cair, encontrar várias gajas na noite, na mesma noite. Quis que ela se apercebesse que eu estava perdido sem ela, quis que ela me visse a bater no fundo e viesse a correr para me salvar.
Mas ela não se importou.
Ela não volta. Estás a destruir a tua vida e todas as recordações boas que ela te deixou.
Foi esse o momento em que acordei e me apercebi que precisava de um caminho diferente a seguir.
Tentei encontrar o meu lugar no mundo, como ela tantas vezes me tinha incentivado.
Mas foi difícil sem ela.
Encontrei outra pessoa. Tenho outra pessoa.
Linda, segura, inteligente e divertida, dona de si e independente. Tudo o que eu podia querer, tudo o que eu sonhava. Mas não é ela.
Quando me deito com ela, quando a beijo, quando a vejo a dirigir-se a mim sem nada a não ser uma das minhas t-shirts velhas e largas, não vejo quem eu quero.
Não tem o sabor dela, nem o toque, nem o sorriso, nem a voz de sono.
Não me estende a mão quando me sente a cair, não me conhece por inteiro, não conhece os meus medos. Não sabe das minhas histórias dolorosas e inacabadas.
Quando a vejo sorrir para mim, quando me abraça e diz que me ama, quero fazer-lhe promessas de um futuro risonho e feliz. Quero dizer-lhe que preciso dela, que me quero esquecer de todas as bocas que beijei e de todos os toques que conheci e ficar apenas com ela.
Quero dizer-lhe para escolhermos uma casa juntos e decorá-la à nossa maneira, com as nossas cores favoritas e as fotos que tirámos em vários momentos.
Quero pedir-lhe que convide as nossas famílias e os nossos amigos para o nosso casamento, quero comprar-lhe uma aliança e prometer-lhe amor eterno. Amor e felicidade.
Não consigo.
Não consigo dar-lhe o que não tenho.
É quando me apercebo que, depois de termos tanto, tudo nos parece tão pouco.
Só nos damos por inteiro a uma pessoa.
Depois disso,  em todos os outros amores, vai faltar um pouco daquilo que tivemos e daquilo que demos.
Em 1001 amores, não vamos encontrar aquilo que perdemos. Uma grande parte de mim, ficará para sempre com ela. E não volta, da mesma forma que ela nunca voltou.
Que medo.



sexta-feira, 15 de maio de 2015

Vamos Conversar

Acho que hoje dava tudo para me sentar contigo e falar-te abertamente, como costumávamos fazer no tempo em que pertencíamos um ao outro. Fosse no sofá, na cama, num restaurante, frente a frente, num banco de jardim, naquele canto mais deserto. Queria ter-te a olhar para mim e a ouvires-me com atenção. A ouvires, sobretudo, aquilo que eu não digo. 
Que ironia, logo eu, que falo tanto, digo sempre tão pouco. Eras dos poucos que tinhas essa capacidade, de ouvir para lá do que eu dizia, de ver para lá da máscara que eu teimava em usar.
Queria que me lesses. Que me dissesses que tudo ia ficar bem e inventasses soluções rápidas para o meu problema. 
Não sei bem qual foi o nosso problema, nem sei porque é que deixamos falhar algo que tinha tudo para dar certo. 
Sento-me sozinha, com aquele peso na consciência de saber que tinha tudo e que o perdi quando andava à procura de mais. 
Depois, encontrei tanto e tudo me pareceu tão pouco. Nenhuma das outras bocas tinha a marca da tua. Em todos os outros cheiros que encontrei, faltava um pouco do teu.
Em todos os outros sorrisos, não encontrava o conforto que tinha no teu.
Tantas caras, tantas pessoas diferentes e eu, burra, achava que ia encontrar o que tinha perdido. Não encontrei.
Agora fico a fingir que está tudo bem e que lido bem com a tua ausência, como se não quisesse abraçar-te. 
Como se não me custasse falar de ti e do que passámos juntos. 
Como se não me apetecesse correr para ti sempre que te vejo, abraçar-te e pedir-te que voltes.
Estou à tua espera. 
Foi a mensagem que tantas vezes escrevi e não enviei. Por medo, por vergonha, por saber que não te posso ter de volta, que os nossos caminhos não se vão voltar a cruzar. 
Eu sei que tens outra pessoa, que te encontraste em alguém. Que hoje passeias com ela com uma calma que não tinhas comigo, que encontraste nela o que eu não tinha a capacidade de te dar.
Provavelmente ela não tem os meus medos, nem as minhas dúvidas a toda a hora. Dá-te a estabilidade que tu precisavas, porque os vossos caminhos estão bem definidos e são iguais, enquanto os nossos foram sempre diferentes e cheios de curvas, com altos muito altos e baixos muito baixos. 
Estava sempre tão carente, precisava tanto de ti, que me esquecia que tu também precisavas de mim.
Sei que estás feliz com ela e fico feliz com isso. Seria egoísta se dissesse que não queria que fosses feliz, porque quero. Mas também seria hipócrita se dissesse que isso não me destrói um bocadinho por dentro.
Não vou beijar outros quando és tu quem quero. Não vou procurar coisas que sei que não vou encontrar, porque não vale a pena.
Quero acreditar que existe alguém, que vai chegar alguém que olhe para mim como tu olhavas. Que tenha um caminho certo mas que não se importe de passear comigo pelas curvas do meu.
Quero pensar que me vou encontrar em alguém, da mesma forma que me encontrava contigo, mas sem pensar em ti. 
Não é isso que todos nós queremos? Encontrar-nos em alguém?
É isso que eu quero. Encontrar um equilíbrio que não conheço há muito tempo, demasiado tempo.
Mas primeiro tenho de encontrar-me sozinha. 



quinta-feira, 7 de maio de 2015

Ainda vamos ser felizes

E eu e tu, quando nos vamos encontrar? E onde?
Já fui tanto que agora custa-me acreditar que sou apenas eu. Sejamos sinceros, eu vou dar-te todas as dores de cabeça. Mas também te prometo, com todas as certezas, que vou fazer com que todas elas valham a pena. Sou a pessoa mais insegura e instável do Mundo. 
Não me dou bem com verdades absolutas. 
Sou sempre tudo ou nada. Sempre. Quando choro, choro como se não houvesse amanhã, como se todos os azares tivessem caído sobre mim. 
Acho que no fundo essa é a minha verdade. Choro todas as lágrimas guardadas para no minuto seguinte me rir como uma louca. Calo-me quando só me apetece gritar e bater o pé, revoltar-me com o Mundo. Falo quando devia estar calada. Não consigo ser só um bocadinho. Não consigo dar apenas um bocadinho. Já tomei todas as decisões erradas, já segui por caminhos incertos, já fiz más escolhas e arrependi-me logo no minuto seguinte. Já magoei quem não queria, já fui magoada por quem menos esperava e o resultado disso foi acabar aqui. Já acordei sem saber que rumo dar à minha vida, mas também já me levantei da cama com a certeza que o Mundo iria ser meu - e seria pequeno para mim. 
Sim, é verdade. Não te vou dar muitas certezas nem estabilidade. Vou gritar-te só porque me apetece, vou acordar-te a meio da noite apenas porque quero ouvir a tua voz, ou porque quero que me ouças. Vou fazer-te comer aquelas comidas que tu não gostas, vou obrigar-te a ouvir música brasileira, ainda que não queiras, vou cantar alto no banho, mesmo que sejam 7h da manhã. 
Não tenho voz para me calar.
Não me quero calar.
E tu, onde estás? Nem te conheço.
Não sei se estás apaixonado ou de coração partido, não sei se alguém te arrebatou, não sei se estás perdido, não sei se estás à minha procura ou à espera de ser encontrado. 
Não conheço a tua gargalhada. Mas é o teu sorriso que eu vejo quando fecho os olhos e que me faz sair da cama de manhã. 
Não sei se preferes o frio ou o sol, se gostas de ficar em casa quando está a chover, se preferes passar tempo com a família ou com amigos. Não sei como é a rapariga dos teus sonhos, mas de uma coisa eu tenho a certeza: não sou eu. Porque nunca irias conseguir sonhar com alguém como eu, capaz de virar a tua vida do avesso.
Não ligues aos meus devaneios.
Eu ando por aí, à tua procura.
Em cada noite que saio, em cada dia que passo a olhar à minha volta.
Em cada música que oiço, em cada batida que danço.
Em cada copo que bebo.
E não me interpretes mal, eu não estou a reservar-me para ti. Não tenho problemas em estar com outra pessoa, nunca tive. Estarei com quem eu quiser, quando eu quiser, durante o tempo que eu quiser.
Mas estou à tua espera, ainda que inconscientemente. É para ti que a outra metade do meu armário está reservada. Estou a gozar. A minha roupa ocupa todo o espaço do meu armário. 
Mas podemos comprar um novo, quando chegares.
Quando quiseres.
Estou à tua espera, à tua procura. Quando souberes isso, saberás que te amo, sempre te amei.
Enquanto isso, vamos encontrar outras pessoas. Vamos ter muitas paragens e fazer todas as loucuras impensáveis.
Mas vamos saber, quando nos encontrarmos, que era para aquilo que estávamos destinados.
Vamos com calma, vamos rir e chorar e ser instáveis. 
Estarei à tua espera, para virar a tua vida de pernas para o ar. A nossa vida.
E, acredita em mim: vai valer a pena.
Ainda vamos ser muito felizes.



terça-feira, 5 de maio de 2015

Quero e estimo que tu te fodas

Mesquinhez é o teu nome do meio e agora sei disso. Só tenho pena por não me ter apercebido antes. Nunca houve nada sincero vindo de ti, nenhuma palavra, nenhum sorriso, nenhum abraço. Tudo o que fazes e dizes é com algum tipo de interesse por trás. Todas as pessoas com quem te relacionas, têm de ter algo para te oferecer, mas quando é algo que não tu não queres, desprezas, rejeitas, abandonas sem qualquer justificação, sem qualquer despedida.
É isso, talvez eu tivesse pouco para te oferecer. Tinha abraços, tinha sinceridade, tinha alegria, tinha sorrisos para partilhar contigo, tinha sonhos na minha cabeça. Mas eram coisas que tu não querias.
Eu só te queria a ti, com cada pedaço de mim. Queria ter-te a meu lado, nos dias de sol e nos dias de chuva, nas noites frias e nas noites quentes de Agosto. Tinha um mundo de planos que podíamos realizar, mas acho que não te chegavam.
Acho que me senti mal comigo, durante muito tempo. Até me aperceber que o defeito não era meu.
Dei tudo de mim e não me vou contentar com alguém que dê menos. Não quero um quase, não quero metade, quero tudo. Quero uma mão que esteja lá para mim, sem precisar de a procurar, quero braços que me amparem, quero um sorriso de bom dia, ainda que o dia seja tudo menos bom. Não sou menos, não dou menos, não aceito menos. 
No fundo, não me arrependo, não me posso arrepender de nada. Nem de tudo o que te dei, nem das mensagens melosas que te mandei, nem das palavras que te dirigi. Não me arrependo de ter sonhado tanto, nem de me deitar noites a fio com vontade de te ter perto de mim, aninhar-me nos teus braços e ouvir a tua voz antes de dormir.
Sei que não errei, embora tenha sido cega e iludida ao pensar que tu eras a solução para os meus medos, as minhas carências, os meus problemas. Hoje sei que não, a solução sou eu mesma. Posso estar partida ao meio, ou em mil pedaços, não posso depender de ninguém além de mim mesma para me reconstruir.
É por isso que agora não te quero. Quero e estimo que tu te fodas.
Quando alguém chegar, e se chegar, quero alguém que me conheça melhor do que eu mesma. Que me leia por inteiro, que não se intimide com os meus berros, que saiba quando preciso de um abraço e quando preciso de espaço. Quero alguém que compreenda a minha loucura e que seja louco comigo. Quero alguém que se deite comigo às noites, todas as noites, e saiba, com toda a certeza, que é ali que quer estar. Não lamento o tempo que perdi contigo. Não te odeio, já nem sequer estou chateada contigo. Ensinaste-me a acordar sozinha, a adormecer sem pena de estar sozinha, a viver sozinha sem ter medo nem vergonha disso. Hoje, quero estar sozinha. Não para sempre, não todos os dias. Mas quando e enquanto for melhor assim.
Porque prefiro estar sozinha a estar com alguém que não quer estar ali. Ensinaste-me isso e tenho pena de não poder dizer-to agora. Um dia vou encontrar-te. Daqui a uns meses, talvez sozinha, a recuperar-me, talvez acompanhada, com alguém ao meu lado que queira estar comigo. E vou agradecer-te, do fundo do coração porque, de todo o coração, essa foi a melhor lição que já me ensinaram.




segunda-feira, 4 de maio de 2015

Ela

Olha para ela, mas olha com olhos de ver. Podes observar com toda a atenção, concentrar-te nos cabelos que ela faz questão de ter em constante mudança, no olhar, no sorriso, na forma como gesticula quando fala, nas gargalhadas sonoras, no jeito como anda, como se relaciona com as amigas. Podes absorver cada pormenor dela e, ainda assim, não consegues ver nem um terço daquilo que ela esconde.
Há tanto por trás dela. Aquele sorriso, quase sempre esconde as lágrimas que ela guarda para chorar sozinha. As parvoíces que ela diz constantemente, que lhe saem de forma tão espontânea e genuína, disfarçam todos os medos que ela acumula. Porque são tantos que ela já nem os consegue distinguir. Medo de falhar, de não ser boa o suficiente, de nunca encontrar o seu lugar no mundo, de estar sempre sozinha, de não conseguir encontrar o rumo que precisa. E, com tantos medos que ela tem, talvez caias no erro de a julgar fraca. Não é. A poker face dela esconde todo o stress e medo que ela acumula - e isso mostra quão forte ela é.
A estrutura emocional dela não é tão fácil de abalar como julgas. Porque por trás dela, estão os pilares fundamentais, que sempre a ampararam. E, enquanto estiverem lá, ela não vai precisar de mais ninguém. 
Ela só precisa dela. Passou tanto tempo a curar-se que, agora, tem a plena noção que tanto pode ser a pior inimiga como a melhor amiga. Ela sabe onde se esconder, onde se refugiar, onde se apoiar. E sabe como se valorizar, ainda que muitas vezes não pareça. 
Agora, volto a dizer-te: olha para ela. 
Ela não precisa de ti para lhe dares a mão, para passeares com ela na rua, porque ela não tem medo nenhum de passear sozinha. Não precisa que lhe dês flores no dia de anos, até porque ela odeia flores.
Não precisa, nem quer, frases feitas nem dedicatórias lamechas e sentimentais. Nem precisa de um gajo que a coma na noite, porque também já tentou fazer isso e não resultou.
Ela precisa - e quer - alguém que a liberte. Que lhe mostre que há muitas formas de viver, que a tire de casa em dias chuvosos, que a acorde antes das 10h da manhã, para não desperdiçar uma manhã inteira na cama. Que a leve a passear, a andar de mota, a fazer coisas que ela não faria se estivesse sozinha. Que lhe conte anedotas, que a faça rir, que a obrigue a ver filmes de terror e lhe tape os olhos nas cenas mais sangrentas. 
Ela não precisa de alguém que lhe diga que vai ficar tudo bem. Ela quer e merece alguém que faça tudo ficar bem. 
No dia em que o fizeres, ainda que não tenhas feito mais nada, vais ter o coração dela. É fácil. Só precisas de olhar para ela. Quando a vires por inteiro, acredita: ela não te vai conseguir esconder mais nada. 
 

terça-feira, 21 de abril de 2015

Amava-te, mas foda-se

Os melhores beijos que me deste, foram dados com o olhar. Transmitias tanto com algo tão simples, todo o amor e proteção, toda a dedicação, toda a cumplicidade que me deste. Sem me tocares, davas-me tanto, fazias-me tanto. Eras tanto.
Não foste só mais um e sabes. Foste tudo aquilo que eu te disse com o olhar, porque as palavras eram insuficientes para o expressar e os toques, os beijos, esses só me davam vontade de fazer mais. 
Pergunto-me como é que não sobrou nada de uma coisa que nos deu tanto. A verdade é que quando algo assim acaba, nós desejamos, esperamos poder esquecer, ultrapassar, viver na ilusão de que nada tenha acontecido, que não tenha sido real... ou que não deixe as marcas, as consequências que lá no fundo sabemos que vai deixar. 
Todas as recordações têm de deixar de existir e foi disso que eu me convenci. O número de telemóvel foi apagado - como se eu não o soubesse de cor. As mensagens trocadas, os e-mails, foram eliminados com um simples deslizar. Os presentes ficaram guardados naquela caixa no fundo do armário e espero não os ver, não lhes tocar. Porque sei que, se algum dia cair no erro de pegar neles, todas as recordações vão voltar, mais fortes e verdadeiras que nunca. 
Contigo tornei-me naquilo que disse que nunca ia ser. A burra e tonta que não via mais nada à frente, que estava sempre disposta a tudo, a enfrentar o Mundo se necessário. Por ti eu deixava tudo, deixava de lado o meu orgulho e o pouco amor próprio que tinha. Dei tanto de mim e no fundo nem me apercebi que o estava a fazer. E talvez eu tivesse pouco para dar, mas dei tudo.
E quando acabou, quando fiquei sozinha, quis que tudo desaparecesse. Convenci-me a mim própria que ia conseguir fazer com que tudo desaparecesse apenas graças a mim, à minha força de vontade. Bem, uma parte desapareceu, sim. O essencial continua lá. Todas as recordações que voltam para me atormentar nas noites em que não consigo dormir. 
O teu abraço, o calor e conforto dos teus braços. Os beijos quentes, as brincadeiras que entre nós faziam tanto sentido. Tudo o que me deste e tudo o que eu te dei e eu sei, foi tanto!
E os olhares... Esses olhares. Alguém me devia ter dito que essas coisas não iam ser fáceis de apagar. Alguém me devia ter alertado que essas coisas nunca iam desaparecer, antes de eu me dedicar a guardar tantas memórias. É como se estivessem guardadas dentro de um frasco e, mesmo depois de eu abrir o frasco, elas permanecessem. 
Alguém me devia ter avisado. Tu devias-me ter avisado.
Já há muito que segui com a minha vida. Há muito que deixei de te amar. Há muito que me dedico a criar novas memórias - desta vez, menos profundas, menos dolorosas. 
E, ainda assim, são as tuas memórias que continuam lá. E eu não sei porquê. Não tenho esperança - nem vontade - de voltar a encontrar-te. Não quero memórias novas contigo e nem as antigas eu queria.

Foda-se, foda-se para isto, para ti e para essas recordações que nunca vão embora, mesmo quando tudo o resto já deixou de existir.
Foda-se.