terça-feira, 17 de novembro de 2015

Ainda demoras?

Estou à tua espera. 
Sei disso e não preciso de o dizer em voz alta, ou de o admitir para os outros, para saber que é verdade. 
Cada poro do meu corpo espera por ti e insiste em esperar. 
É estranho e assustador. Há muito tempo, demasiado tempo, que não espero por ninguém e que não quero esperar nada de ninguém. 
E aí estás tu, tão sombrio e solto, sem saberes que te chamo e que grito o teu nome em silêncio. 
Tento distrair-me, distrair-me de ti e do tempo que perco à tua espera e encontro mil distrações. Foco-me no trabalho, nos amigos, nos cafés, nos jantares, nas noitadas e nas bebedeiras, nas conversas soltas, nas brincadeiras, nas gargalhadas trocadas. 
Esqueço-me do que é estar à espera de alguém, estar à tua espera. Até que tudo se volta a resumir a ti. 
A ti e às emoções que me trazes e que me embrulham o estômago e me toldam a mente. 
Baseio-me em dias sem sabor e sem cor, em conversas que desvio apenas para não falar de ti, para não pronunciar o teu nome, como se isso me fosse fazer esquecer de ti. Baseio-me nas brincadeiras que tenho enquanto penso no que estás à espera de fazer, no cigarro que se apaga sem eu ter sequer travado, na vodka que não tem o sabor que procuro e numa cama onde não te encontro. 
Onde não me encontro. Porque não sei onde estou. 
Insistem em dizer-me que não és o homem certo para mim... como se eu fosse a pessoa certa para alguém.
Verdade seja dita, não quero esperar mais. 
Não nos vejo juntos. 
Mas gostava. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Despedidas

Um dia disse que, no dia em que encontrasses alguém que te fizesse feliz, eu estaria feliz também. 
Disse isso às pessoas que se cruzaram comigo e me perguntaram por ti, disse isso à tua frente, para que soubesses que não olhava para ti com ódio ou raiva e por saber que mereces, mais do que ninguém, encontrar a tua casa em alguém. Mas, sobretudo disse isso para mim mesma, nas noites em que adormeci afogada em lágrimas e nas manhãs em que acordei e olhei para o telemóvel à espera duma mensagem tua. Em todos os dias em que andei perdida, na esperança que me encontrassem. 
Tonta, na altura não sabia que a única pessoa que me podia encontrar, seria eu mesma. 
Passou muito tempo, muito tempo desde a última vez que te vi e senti o teu cheiro perto de mim. 
Queria dizer que já não me lembro, mas estaria a mentir. Ainda me lembro da tua voz, do teu sorriso e da tua presença. Ainda te vejo à noite, quando apago as luzes e tento dormir. 
Entretanto, ambos crescemos e a vida levou-nos para longe um do outro. 
E agradeço-lhe. À vida, a Deus, ao destino, ao que quer que seja que nos afastou, que me fez chorar sozinha, que nos fez conhecer outras ruas, outras pessoas, outros caminhos e outra loucura que não fosse a nossa. 
Ficar perto de ti nunca seria saudável e, agora, ambos sabemos disso. 
Fiquei a saber que encontraste alguém. E, surpresa, não fiquei feliz por isso. 
Talvez eu seja uma mentirosa, como um dia me chamaste e nunca vá ficar feliz por te ver feliz com outro alguém. Talvez não estivesse preparada para saber que encontraste a tua casa antes de eu me encontrar a mim mesma ou talvez eu apenas tenha dito que ficaria feliz por ti porque era mais fácil do que admitir que tinha falhado. Que ambos tínhamos falhado, connosco e com aquilo que tínhamos prometido um ao outro. 
Sei que passeias de mão dada com ela, nas ruas e nos locais que, graças à vida, a Deus e ao destino eu já não frequento. Sei que assumes de peito cheio aquilo que sentes por ela. Claro que ela não deve saber o quão difícil é para ti assumir alguma coisa, principalmente o quanto gostas de alguém. 
Sei que até já danças e bebes com ela, coisa que comigo não fazias. 
Correndo o risco de ser mal interpretada e julgada, não fico feliz por ti. 
Oxalá ficasse. 
Não te desejo mal e muito menos tenho esperança de voltar ao que éramos. 
Até porque, quando olho para trás, já não nos vejo. 
Vejo dois miúdos tontos e iludidos por contos de fadas que, na verdade, nunca existiram. 
Prometemos que conversaríamos se sentíssemos que algo mudava ou se perdia e prometemos ficar juntos, ainda que o barco estivesse a afundar e teimasse em nos levar para o fundo. 
Não o fizemos. Gritamos um com o outro. Insultamo-nos, gritamos, discutimos, falamos mal um do outro a todos os ouvidos que quiseram ouvir e, não satisfeitos, ganhamos nojo e raiva um do outro e da história que construíramos. 
E acabamos, com certeza absoluta de que tínhamos sido um erro. 
Não fomos. 
Fomos uma aprendizagem, é assim que gosto de olhar para nós. Fomos loucos, ingénuos, apaixonados e mesquinhos e, no meio da loucura, a raiva passou. 
Passou e eu quis que encontrasses alguém. Alguém que fosse a tal e que te fizesse sentir aquilo que eu não fiz. 
Não sei se a pessoa com quem estás agora, é ela. Não sei se olhas para ela e sentes calor no corpo todo e frio na barriga, não sei se tens borboletas - ou traças - no estômago, não sei se sonhas com casamento, filhos e animais adotados. 
Não sei se ela te faz bem ou mal, se te sentes em casa quando ela te sorri, mas espero que não. 
Na mais profunda contradição, posso dizer-te que não quero voltar para ti. Não te amo e nunca seria capaz de voltar ao veneno que fomos um para o outro. 
Há muito tempo que te tranquei no passado e me permiti olhar para trás sem sentir nada. 
Nem raiva, nem ódio, muito menos nojo. Só um nada. Vazio. 
Mas não quero que encontres a tua casa agora. 
Vive mais, arrisca mais. 
Sai da tua zona de conforto, segue os conselhos fracos que um dia te dei. 
Permite-te ser feliz sem precisares de ter alguém por perto. 
Mas, se eu estiver errada, como quase sempre estou, espero que todas as noites, quando a vires a dormir à tua beira, o teu coração se aperte e despedace com medo de a perderes. De não encontrares alguém como ela. 
Nesse dia, se ainda tiveres o meu número, se ainda tiveres como me encontrar, manda-me uma mensagem. 
Não quero desculpas, nem arrependimentos. 
Não quero lamechices, nem lágrimas. 
Quero ouvir - ou ler - com a mais profunda sinceridade "agora sei o que tu um dia sentiste".
Talvez nesse dia eu finalmente me liberte do que quer que seja que me está a prender e me sinta livre o suficiente para procurar - e encontrar - a minha casa




sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Ao meu passado demasiado presente

Uma vez disse que, na noite em que me sentasse e começasse a escrever-te algo, seria a noite em que iria admitir, para os outros e para mim mesma, que me apaixonei por ti. 
Parece que essa noite chegou. 
Tão sonhadora e tão desfeita em pedaços, com tanta vontade de ver o mundo e, ainda assim, com tanto medo de arriscar e de viver. Era assim que eu estava quando nos conhecemos. 
Vontade de voar e os pés demasiado assentes na terra foi como tu tão bem me definiste.
E que sorte a nossa, encontrarmo-nos logo quando tudo parecia querer levar-nos para longe um do outro. 
Tivemos a sorte de ter momentos tão bons, conversas sem sentido, encontros à toa e despedidas que só nos mostraram onde queríamos estar: nos braços um do outro. 
Fomos uns privilegiados. 
Com tanta gente no mundo, tropeçamos um no outro e partilhamos os nossos sorrisos e as nossas lágrimas.
Vivemos tanta coisa, tantas luas, tantos sóis, ora brilhantes ora tapados por nuvens. 
E lá estávamos nós, tão presentes na vida um do outro, quando dizíamos a nós próprios que seríamos mais felizes se seguíssemos caminhos separados.  
Era mentira. 
Eu só seria feliz se fizesse o que queria e o que eu queria era ficar lá contigo. Caminhar para ti quando me apetecesse, sabendo de antemão que me irias abrir a porta com um sorriso convencido na cara, com aquele teu ar de espertalhão que dizia "sabia que estavas a chegar". 
Beber contigo e partilhar cigarros enquanto dançávamos alheios à multidão que nos olhava e rodeava e acordar no dia seguinte sem me lembrar de nada. Que se lixassem os pensamentos, desde que estivesse na tua cama, estava tudo bem. 
Mas isso nunca iria durar muito e nunca te iria deixar feliz. 
Precisas de mais. 
Precisas de alguém que te segure a mão e que caminhe contigo sem ter medo de onde os teus desejos e sonhos a vão levar. 
Eu não sou nem nunca serei essa pessoa. Estou demasiado atordoada. 
A minha vida é feita de caminhos que não quero voltar a cruzar, mas que ainda me chamam. 
Assuntos mal resolvidos que não me deixam dormir à noite. Vontade de voltar atrás, com medo que o futuro não me traga a felicidade que um dia perdi. 
Por isso, sim, seremos mais felizes se estivermos separados. Se vivermos a nossa vida não como se nunca nos tivéssemos cruzado, mas com a certeza que estamos melhor se fizermos desse encontro uma passagem.
Não precisas de me esquecer. Eu certamente não o farei. 
Da próxima vez que me cruzar contigo, na cidade onde fomos felizes ou na cidade que os dois queremos visitar, vou sorrir, sabendo, de coração cheio, que me ensinaste mais do que eu seria capaz de aprender sozinha. 
Vou agradecer ao destino por me ter dado a oportunidade de conhecer uma das pessoas mais incríveis que alguma vez entrou na minha vida. Mas não vou esperar que me abraces ou que me digas olá.
Vou querer que sigas em frente, sozinho ou acompanhado, mais sorridente. 
Vou querer que guardes uma recordação bonita, mas nada mais do que isso. 
Vou querer que traces o teu próprio caminho e sigas a tua vida, com a noção que marcaste a vida de alguém. 
E que esse alguém te deixou livre não por inseguranças, não por saber que outras tantas miúdas tinham cruzado o teu caminho antes, mas sim por ti. 
Porque mereces mais do que te podia dar. 
Obrigada por teres feito de mim uma pessoa melhor e por teres deixado o meu coração mais preenchido. 
Agora, eu também preciso de seguir a minha vida, sabendo que é bom ter uma caixa de recordações cheia, mas que é melhor ainda caminhar em frente, sem ter ninguém a prender-me lá atrás. 



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Uma vez disseram-me que precisava de expulsar da minha vida tudo aquilo que me fazia mal. 
Nunca as palavras fizeram tanto sentido como agora. 
Eu já te deixei ir há muito tempo. Não por ciúmes nem por medos, nem sequer por ódio, como tu imaginavas. Não por ter medo de não viver com mais ninguém aquilo que vivi contigo, nem por saber que iria chorar, ficar de coração partido durante meses a fio. Apenas porque precisei de te perder para me encontrar. 
Durante algum tempo eu fingi. Fingi que não te queria, que não chorava por ti, que não me arrependia de te ter conhecido e de ter feito tanta merda quando tu nem perdias tempo a olhar para mim. 
Fingi que não pensava em ti antes de adormecer e que não sentia a tua falta em dias de chuva. 
Fingi que não tinha medo que me esquecesses, que encontrasses noutro alguém aquilo que em mim não tinhas visto. 
Depois passou. E o momento em que desapareceste da minha memória foi muito pior que todos os momentos de sofrimento que já tinha passado. Porque, em vez de tristeza, mágoa, solidão, senti medo. 
A partir desse dia, soube que eu nunca mais seria a mesma. 
O nariz empinado foi-se embora e nasceu uma pessoa mais humilde. Uma pessoa que se cala, mesmo quando quer gritar. Que ouve os outros, mesmo quando não concorda e não quer estar ali, uma pessoa que faz um esforço para ficar quando se quer ir embora. 
E que merda de pessoa é essa. 
Tu fazias-me mal e eu expulsei-te da minha vida, na esperança de ficar melhor. Deixei de ir ao nosso restaurante favorito e de ouvir as músicas que me faziam lembrar de ti. 
Os meus lençóis deixaram de ter o teu cheiro depois de inúmeras lavagens e eu não voltei a percorrer o caminho onde nos cruzamos pela primeira vez e onde fizemos questão de passar tantas vezes. 
Já não me sento naquele cantinho onde costumávamos ver as estrelas e falar da nossa infância, do nosso futuro, da nossa casa com piscina e jardim e dos nomes que queríamos dar aos nossos filhos. Já não acordo no meio da noite à tua procura na cama. Agora, não me lembro sequer do teu sabor de gelado favorito. 
Já não me fazes falta, já não sinto nada. Nem saudades. 
Que merda. O instante em que não sentimos nada é muito pior do que todos os dias em que achamos que já não vamos aguentar o nosso próprio corpo, porque tudo nos dói. 
Mas, o pior, é que a minha vida não mudou por te teres ido embora. Não melhorou. Continuo a sentir-me da mesma maneira, todos os dias. 
Agora só como gelado de chocolate, porque tu não estás cá para me obrigar a comer outros sabores. 
Só peço pizza de fiambre e ananás porque é a única que me sabe bem, ao contrário daquelas misturas estranhas que me obrigavas a experimentar. 
Mas ninguém voltou a entrar no lugar onde tu entraste. Ninguém voltou a ver o meu lado que só tu conheceste.
Quando me cruzo com outras pessoas na rua, é como se já não tivesse a capacidade de lhes abrir o coração. É como se tudo estivesse toldado por meios e receios que antes não existiam. 
Que merda. 
E isto é tudo para te dizer que, depois de expulsar da minha vida aquilo que me fazia mal, não apareceu mais nada que me fizesse bem. 
Neste momento, precisava de ti aqui. A minha cama já não é a mesma onde tantas vezes dormimos, mas isso não me impede de sentir a tua falta nela. 
Queria que estivesses aqui. E não precisavas de falar, nem de me ouvir. 
Não precisavas sequer de me abraçar, nem de me prometer que desta vez ias ficar e ia ser tudo diferente. Só queria que estivesse aqui alguém, só queria saber que não estava sozinha. 
Ter na nossa vida alguém que nos faz mal aos olhos dos outros seria melhor do que não ter nada, nem ninguém. 
Mas não estás aqui e eu não sei onde estás. Espero que não estejas a fazer mal a mais ninguém e espero que os teus pensamentos da madrugada não te martirizem tanto como os meus me martirizam. 
Que merda. 


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Diz-lhe que a Amas

Conheci-a numa noite qualquer.
Numa noite em que ambos estávamos bêbados, eu mais do que ela, de certeza. 
Estávamos tão perdidos, que não foi difícil cairmos um no outro. Um pelo outro. 
Na altura, eu não sabia que essa seria a melhor e a pior noite da minha vida.
Não foi difícil amá-la. Apaixonei-me por ela no momento em que a vi dançar, solta pela bebida, sem medos e sem pensamentos, sem ter a noção que eu a observava. Que todos naquele bar a observavam e a queriam. Sim, apaixonei-me por ela naquele preciso minuto, sem saber que ela iria revolucionar toda a minha vida.
Sem saber que iria amá-la. Porque amei-a em cada conversa, em cada olhar, em cada mensagem que lhe mandava de madrugada. Amei-a nas noites em que ela adormecia no meu peito e nas manhãs em que me acordava com os dedos a passarem no meu cabelo. Amei-a quando ela chorava nos meus braços e quando a via rir de piadas estúpidas. Amei-a quando a ouvia falar sobre os livros que lia e quando a via ficar com lágrimas nos olhos enquanto via filmes típicos de menininha.
Amei-a quando a apresentei aos meus amigos, quando lhe segurei orgulhosamente na mão e lhe chamei minha miúda em frente a toda a gente. Amei-a nas noites em que a vi ficar mais bêbada que eu e precisei de ajuda-la a voltar a casa e mais ainda nas noites em que saí para beber sozinho e ela ficou em casa à minha espera. À espera do meu amo-te para adormecer.

Amei-a sem ter noção que a amava e que era a escova de dentes dela ao lado da minha. Que queria tomar banho com o cheiro do shampo dela a entrar-me nas narinas, que queria acordar todos os dias desejoso de ouvir a voz dela.
Ela não sabe, mas é fácil amá-la. Porque, foda-se, ela é linda. E não me refiro ao rosto bonito nem ao corpo esbelto, não me refiro à boca pintada de vermelho nem às roupas que ela tem no armário. Seria fácil se fosse só isso.
Ela tem a mente mais brilhante que conheço e não falo de horas de estudo e grandes notas nos exames. Falo da forma como se apaixona, como ama, como fala, como tem os pés bem assentes na terra mesmo quando se permite sonhar alto.
Sim, ela é fácil de amar e quem se cruza com ela sabe disso. Porque, por onde passa, todas as cabeças se voltam para olhá-la. Os homens porque querem tê-la, as mulheres porque querem ter a hipótese de se cruzarem com ela, falarem com ela, aprenderem com ela.
Amei-a tanto tempo sem saber que, agora, com todo o tempo do Mundo, tenho noção do porquê. E não é pela beleza, nem pela forma como a vi dançar e beber naquela noite.
É pela forma como ela sorri a toda a gente, mesmo a quem não conhece. Como confia, sem se deixar iludir e manipular. Como sabe ocupar o seu lugar, sem qualquer tipo de ciúme ou de "quem será que esteve aqui antes."
Amei-a e amo-a, pela forma como ela transmite loucura e paz a quem está com ela. Pela forma como ela nos faz querer saltar de uma ponte num momento e, no momento a seguir, nos faz querer estar deitados num sofá a ler um livro.
Amo-a porque nada do que ela diz ou faz pode ser ignorado. E eu tentei ignora-la.
Queria dizer-lhe tudo isso agora, às 2h da manhã, quando nem o cheiro a tabaco e a álcool apagam o cheiro dela. Quando todas as outras gajas a dançar não me cativam como ela.
Mas ela está contigo agora.
E queria dizer-te que a tratasses bem, que cuidasses dela, mas não precisas que to diga, porque irás fazer isso melhor que eu.
Sabes a mulher que tens ao teu lado e, se tiveres um bocado de juízo, vais conserva-la. Vais apresenta-la aos teus amigos e à tua família com orgulho.
Vais desejar um final feliz ou uma história sem final e, espero eu, vais ser o gajo com quem ela vai querer entrar na igreja vestida de branco e todas essas coisas que ela sonha.
Vais ser o gajo que vai olhar para outras miúdas na rua, sem querer sequer tocar-lhes porque a miúda que tens ao lado vale mais que elas todas. Não pela boca linda nem pelo sorriso rasgado, não pelo rabo perfeito, mas pela forma como as palavras dela ecoam na tua cabeça a cada minuto do teu dia.
Não vais envenená-la como eu fiz, vais dar-lhe o fairy tale que ela sonha e merece.
Portanto, todas as minhas palavras serão inúteis. Só há uma coisa que eu te peço que faças: diz-lhe que a amas. De forma louca, como eu nunca fiz.
E presta atenção quando ela estiver a falar dos livros que leu. Ela gosta disso.


💫


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Deixa-me Ir

Comecei a acreditar no amor no dia em que te deixei ir. 
Irónico, eu sei.
Vou contar-te uma história, a minha história, a nossa história. Não sei nem como nem quando é que isso aconteceu. Só sei que, de um momento para o outro, comecei a pensar mais em mim do que em ti, em nós. Comecei a aperceber-me que a vida era mais do que aquilo que eu vivia e que queria viver tudo o resto. Passei dias e noites, semanas a fio a conhecer outros cantos, outros rostos, outras histórias, outros sorrisos, outras vontades. Outros mundos. 
Vivi tanto que não tive tempo para pensar em ti nem nas memórias que, até então, não paravam de assombrar a minha vida. 
E não foi fácil. Quando olho para trás, tu estás lá. Estás em cada esquina, tão presente como sempre estiveste. Uma parte do meu passado que está demasiado presente e que teima em não me deixar avançar. Às vezes a cores, às vezes a preto e branco, outras vezes sem qualquer cor, sem qualquer som. Apenas memórias sem rostos e um caminho que não me leva a lado nenhum. 
Foi desse passado que eu tentei fugir e não consegui. 
Tu sabes, sabes porque me conheces melhor que ninguém. Porque tens controlo sobre mim, sobre a forma como vejo o Mundo e como encaro os outros. 
Sabes que me marcas de uma forma que mais ninguém conseguiu, nem vai conseguir. Todos os outros vão-me dar pouco, comparando com aquilo que me deste. Porque me envolveste de uma forma tão louca, tão invulgar, tão venenosa, que eu vejo-te em qualquer lugar do mundo, encontro-te quando estou perdida. Vejo a tua cara num milhão de caras diferentes e oiço o teu riso em todos os outros risos. E em outros choros, também. 
Quando eu viro a cara, quando fecho os olhos, quando me permito olhar para trás, és tu que estás lá. Dessa forma tão louca e pouco saudável que só tu sabes ter.
Era dessa marca que eu tinha medo e foi dessa marca que eu fugi. 
Fugi, numa esperança demasiado vã que, se não te visse, se não te tocasse, esse passado podia ser apagado. Não pode e sei disso agora. 
Mas também sei que esse passado não define quem sou e, certamente, não define aquilo que quero do meu futuro. Sou demasiado senhora do meu nariz para deixar que isso interfira em qualquer coisa daqui para a frente. Vou andar perdida muitas vezes, vou chorar noutras tantas e vou querer que o Mundo pare em muitas outras. Eu sei disso. Mas também sei que serei feliz quando me encontrar, sem medo que o passado volte para me assombrar. 
E não me interpretes mal, eu fui feliz contigo. Durante algum tempo, soube-me bem ouvir estilos de música diferentes, fazer coisas que não fazia habitualmente. Soube-me bem conhecer o teu toque, ouvir a tua voz, acordar contigo dos meus pesadelos mais escuros. 
Mas, depois desse tempo, senti saudades. Senti saudades da minha música e das minhas pessoas, dos meus hábitos aborrecidos, dos sonhos que perseguia sozinha. 
Não tiveste culpa nenhuma, eu é que não consegui mudar. Não consegui porque não quis, porque, sabes, eu gosto dos meus hábitos. Gosto de sentir que sou dona e senhora da minha vida e que posso fazer com ela aquilo que eu quiser.
Gosto demasiado de tomar as decisões só porque sim, só porque quero, sem ter de pedir autorização e sem ter de dar justificações. 
É isso, não sou pessoa de perder tempo com justificações. Deste-me algo bonito para lembrar e uma parte de mim vai ser sempre apaixonada por essas memórias. 
Mas sou mais feliz se não tiver essas memórias por perto. 
E se isso implicar andar sozinha e perdida, se isso implicar destruir-me e reconstruir-me, que seja. 



quinta-feira, 21 de maio de 2015

Só Queria

Acho que algumas pessoas entram na nossa vida apenas para nos mostrar que as coisas mudam.
Sim, as coisas mudam, o Mundo gira, os dias passam, tudo evolui, o Inverno dá lugar à Primavera e assim sucessivamente. 
Tudo muda e as coisas nunca voltam a ser como eram.
Foi isso que eu aprendi e é essa uma das poucas certezas que tenho, em 20 e poucos anos de existência.
Nada volta a ser como era antes.
Eu não me consigo lembrar como era há uns tempos atrás, há uns meses ou anos.
Não me lembro de como era antes de os medos dos outros me atingirem, antes das preocupações do Mundo me caírem sobre os ombros. 
Não me lembro de quando era apenas uma miúda que sorria por tudo e por nada, que fazia comédia das coisas mais simples, que via em tudo algo de bom. 
Hoje, eu queria voltar a ser assim. 
Queria preocupar-me com pouco ou com nada, queria ser livre e não deixar que os stresses dos outros me caíssem em cima.
Queria sentir o sol na pele e a areia nos pés, sem pensar no que os outros diziam, ou pensavam.
Queria que os meus medos fossem apenas meus e, sempre que os partilhasse com alguém, fosse por vontade própria, não por estar tão enterrada neles que já não conseguia desenterrar-me sozinha.
Queria não conseguir adormecer, não por medo nem preocupações, mas porque alguém estava ao meu lado e me tirava o sono. De uma maneira louca e saudável, se é que isso é possível. 
Já não consigo. Algumas pessoas mudaram-me tanto, atormentaram-me, assustaram-me.
Aumentaram-me, diminuíram-me, envolveram-me.
Encheram-me de medos, de angústias, de frases feitas que não me levaram a lado nenhum. 
Às vezes, queria apenas voltar a ser a miúda que fui há uns tempos e dar a conhecer os meus inúmeros sorrisos a alguém. O sorriso tímido, o ausente, o irónico, o perspicaz, o amigável, o "não te conheço mas gosto de ti", o "somos amigos mas podemos ser algo mais". Tantos sorrisos, todos tão meus, que eu gostava de partilhar com alguém.
Já não consigo. Hoje sou medo. Sou dúvidas e estou tão embrenhada naquilo que os outros deixaram que não consigo ser apenas eu.
Perdi um pouco de mim e esse pouco não volta. 

Hoje eu queria deitar-me como se nada importasse, partilhar com alguém aquilo que me vai na alma, sem medos.
E não consigo. 
Talvez a solução, a minha solução, seja deixar o tempo passar.
Não para recuperar aquilo que perdi, mas para assimilar aquilo que os outros deixaram e deixam em mim.
Para conseguir aperceber-me que, o meu eu mudado, também sou eu. E não sou menos eu por isso.
Talvez tenha apenas que deixar o tempo passar.
E esperar que o tempo me traga a calma, a calma que eu não tenho, nunca tive e quero aprender a ter.